quarta-feira, 8 de abril de 2009

Entrevista

Ana Maria Caetano, Cartas na mesa, entrevistada por Constança Cunha e Sá. Uma entrevista intimista, equilibrada, que nos devolve ao tempo em que a Ditadura ainda o era. Somos transportados a um tempo não muito distante, mas cuja realidade muitos hoje desconhecem. Da personalidade de seu pai, Marcelo Caetano, ficámos a conhecer. Da história que nos rodeou durante a guerra de África. Do dia que nos devolveu a liberdade.
Mas são os aspectos pessoais, intimistas, da entrevista, que se sobrepõem. A sensibilidade de quem viveu a realidade política, junto daquele que foi o último Presidente do Concelho, numa perspectiva serena e desapaixonada, mas simultâneamente cúmplice.
Há aspectos que devemos recordar na ditadura, aspectos históricos que tendemos a esquecer, mas que são importantes. Não sendo Marcelo Caetano, como é sabido, um defensor da democracia, nem um exemplo ímpar de governação, merece no entanto ser avaliado pelos aspectos mais nobres da sua curta aparição política.
Não se julgue na democracia o sistema de todas as virtudes. Bem longe disso. Não sendo a ditadura um sistema equilibrado, tem aspectos com os quais deviamos aprender.
Para quê enumerá-los? Basta atender ao perfil humano e intelectual deste homem, para aprender um pouco das virtudes dos homens honrados que nos governavam -- embora estivesse o povo, e ele próprio, de braços e mãos atados.

Em tom intimista, a entrevista acaba com a declaração sentida da filha, Ana Maria Caetano, que tal como o pai perto da morte, disse ao médico que o assistia antever re-encontrar a sua mulher, no céu em breve, ela também desejava um dia o re-encontrar.

Num mundo pejado de notícias supérfulas e concursos idiotas, telenovelas imbecis, talk-shows que apenas trazem à luz do dia superficialidades, sabe bem, de vez em quando, um pouco de intimismo verdadeiro, e recordação da história de um país que foi tão diferente -- há 35 anos.
A mim, parecem-me 10.

Um comentário:

Nuno Fonseca disse...

Gostava de ter visto.
A serie "A Guerra" também é muito boa, não é?