sexta-feira, 17 de abril de 2009

A esquizofrenia mediática

A esquizofrenia (do grego σχιζοφρενία; σχίζειν, "dividir", e φρήν, "mente") é uma doença mental grave que se carateriza classicamente por uma colecção de sintomas, entre os quais avultam alterações do pensamento, alucinações (sobretudo auditivas), delírios e embotamento emocional com perda de contacto com a realidade, podendo causar um disfuncionamento social crônico.

Vivemos em tempo de crise. Ponto, parágrafo.
Nestes tempos dificeis surgem em Portugal, notícias estapafurdias. Num país tão pequeno como Portugal, com três grandes canais de projecção nacional, mais três na televisão por cabo, não existem variantes -- os despedimentos sucedem-se, os anúncios que a crise será maior do que o que se previa (pelo governador do Banco de Portugal), o suspense do candiato às europeias do PSD, as tricas do caso Freeport, o diz que diz do BPN e respectiva comissão de inquérito, uma repetição de dia para dia, infernal.
Para variar: as bolsas encerram em alta, os juros descem, e explicações simplórias do quão negativo é o facto da inflação ser negativa. Eu diria que os jornalistas de hoje em dia, com algumas excepções, são iletrados, escrevendo as peças jornalisticas com uma jactância inenarrável, papagueando apenas as balelas que as agências noticiosas nacionais (tipo Lusa) e internacionais ditam.

Ninguém conseguiria, num periodo difícil, trazer mais banalidades, estórias mal explicadas, frugalidades, do que os jornalistas.

Vejamos a seguinte notícia de ontem, em vários (senão todos?) os canais: houve um apagão na justiça, coitados dos juizes, esses nobres servidores do nosso estado de direito, não conseguiam consultar o cadastro criminal dos reus levados a julgamento. Resultado, milhares de julgamentos em todo o país tiveram que ser adiados, devido ao verdadeiro apagão no sistema informático.
Ora bem, porque sou engenheiro informático, gosto de tratar as coisas pelos nomes. Assim, a falta de luz electrica numa cidade, ou vá, generalizada, pode tratar-se por um apagão. Mas convenhamos que num sistema de justiça português, onde tudo anda à velocidade da tartaruga, uma indisponibilidade de consulta temporária do sistema cadastral não se deverá designar por apagão. Salvo o devido respeito, os jornalistas é que andam apagados pela falta de notícias...
Mais, na notícia referia-se que os magistrados consideravam que o sistema não funcionava, porque as procuras do registo criminal nem sempre estavam disponíveis. Mais uma vez, a enorme sapiência que nos brindam -- ou os jornalistas, por não saberem descrever o que se passa, ou os ilustres magistrados, na falta de rigor. Das duas uma: ou o sistema não funciona, ou quando se pretende usar o sistema, está operacional poucas vezes. Acaso conduzirá a procuras com falsos resultados negativos, isto é, procura-se o registo criminal de alguém, esse registo existe, mas não é encontrado? Ou pelo contrário, procura-se alguém de bom nome e aparecem um cem número de entradas? Ou se tratará de um político pouco escrupuloso, e nesse caso o sistema acertou na mouche, ou então o sistema dá resultados a mais, logo, pouco fidedigno.
Em qualquer caso, esta notícia, por ser tão simples, e tão mal descrita, põe a nú a falta de rigor jornalistico com que certos aspectos devem ser tratados.

A esquizofrenia não reside apenas aqui.

O caso Freeport suscita suspeitas, inquietação, mal-estar. De acordo. Mas daí a construir sucessivas notícias inócuas, difamações gratuitas, as especulações mais escabrosas, vai um enorme passo. E é esse o passo construido alegremente pelos políticos que nos governam. Mas não só. Os jornalistas alimentam esta fogueira de suspeições generalizadas. Notoriamente.
Não vale a pena assobiar para o lado. Numa altura onde as notícias de desastres e apocalipses escasseiam, passam a dominar os DVDs do fulano e cicrano a narrarem em primeira mão sobre as luvas que lhes passaram pelas mãos. Mal a justiça que não conseguiu, ao longo de cinco anos, esclarecer algo que parece, de fácil desbaste. Das duas uma: ou houve algo e alguém terá de ser acusado, e consequentemente julgado, ou não houve, e então isentem-se as suspeitas dando o caso por encerrado. Este limbo onde todos andamos não podia ser pior.
Ou melhor. Podia. E é.
Porque os deputados, confrontados com este sentimento de impunidade e esgoto público em que se tornaram as notícias, decidiram investir agora na tentativa de encontrar no enriquecimento ilícito, o bode espiatório para todos os males. Em má altura. A quente. Sem reflexão, ponderação, isenção.
O sentimento absurdo que, ao tornar as contas individuais abertas a qualquer mero funcionário fiscar, se poderão detectar os infractores, para casos como este, o do Freeport. Como que uma ideia brilhante a percorrer as veias dos 230 deputados da nossa nação. Para limpar a face da política suja que o caso Freeport, aparentemente, revelou.

Pior: o desemprego cavalga sobre milhares de famílias, enquanto o digno representante do banco que é o nosso, o Banco de Portugal, não apresenta cenários macro-económicos ou previsões sobre o mesmo. Os deputados infernizam-se sobre as virtudes de um sistema fiscal feudal, que como um machado sobre as cabeças dos corruptos, repõe a ordem e a lei, superando os que a não respeitam.

É esta a esquizofrenia mediática em que vivemos, à espera de melhores dias.
Certamente virão, num mundo sem políticos corruptos, e sobretudo: sem jornalistas mediocres.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Entrevista

Ana Maria Caetano, Cartas na mesa, entrevistada por Constança Cunha e Sá. Uma entrevista intimista, equilibrada, que nos devolve ao tempo em que a Ditadura ainda o era. Somos transportados a um tempo não muito distante, mas cuja realidade muitos hoje desconhecem. Da personalidade de seu pai, Marcelo Caetano, ficámos a conhecer. Da história que nos rodeou durante a guerra de África. Do dia que nos devolveu a liberdade.
Mas são os aspectos pessoais, intimistas, da entrevista, que se sobrepõem. A sensibilidade de quem viveu a realidade política, junto daquele que foi o último Presidente do Concelho, numa perspectiva serena e desapaixonada, mas simultâneamente cúmplice.
Há aspectos que devemos recordar na ditadura, aspectos históricos que tendemos a esquecer, mas que são importantes. Não sendo Marcelo Caetano, como é sabido, um defensor da democracia, nem um exemplo ímpar de governação, merece no entanto ser avaliado pelos aspectos mais nobres da sua curta aparição política.
Não se julgue na democracia o sistema de todas as virtudes. Bem longe disso. Não sendo a ditadura um sistema equilibrado, tem aspectos com os quais deviamos aprender.
Para quê enumerá-los? Basta atender ao perfil humano e intelectual deste homem, para aprender um pouco das virtudes dos homens honrados que nos governavam -- embora estivesse o povo, e ele próprio, de braços e mãos atados.

Em tom intimista, a entrevista acaba com a declaração sentida da filha, Ana Maria Caetano, que tal como o pai perto da morte, disse ao médico que o assistia antever re-encontrar a sua mulher, no céu em breve, ela também desejava um dia o re-encontrar.

Num mundo pejado de notícias supérfulas e concursos idiotas, telenovelas imbecis, talk-shows que apenas trazem à luz do dia superficialidades, sabe bem, de vez em quando, um pouco de intimismo verdadeiro, e recordação da história de um país que foi tão diferente -- há 35 anos.
A mim, parecem-me 10.